Um dia, em 2004, o técnico Cuca entrou no refeitório do (quase) falecido estádio Olímpico e viu um garoto de óculos escuros falando ao celular - e segurando outro com a mão. Em um misto de espanto e graça, o treinador perguntou:
- Dois celulares? Tá pensando que é quem, guri?
- Eu sou o Anderson, professor. E jogo mais do que qualquer uma daquelas merdas que tu tem no time.
Cuca colocou Anderson em um Grenal que o Grêmio perdeu, mas o guri de 16 anos fez um gol de falta. De fato, ele jogava mais do que qualquer um daquele time que, meses depois, seria rebaixado para a série B do campeonato Brasileiro.
Anderson surgiu para fazer a torcida esquecer Ronaldinho - coisa que, por exemplo, Bruno Soneca não conseguiu. Habilidoso e cheio da marra. Seu salário foi de mil para 40 mil e a primeira coisa que fez foi comprar um carro. Chegou no pátio do Olímpico na carona (ainda não tinha idade para dirigir) de uma camionete e foi interpelado pelos repórteres. Queriam saber se, de certa maneira, aquilo não era um absurdo. Ele respondeu:
- Não sei, mas ninguém tem que falar nada sobre isso. Não me importa. Quando eu não tinha geladeira em casa... Ninguém se preocupava comigo.
Anderson virou Andershow, tamanha era a habilidade. Mano Menezes teve a pachorra de colocá-lo no banco de jogadores risíveis como Jacozinho, Luiz Fernando e Nunes. Sofreu. No fim de 2005 ele marcava o gol da batalha dos Aflitos e, para sempre, ficava na história do torcedor gremista. Contam que, pouco tempo depois, entrou na sala do presidente Paulo Odone e, para não sair feito Ronaldinho, disse:
- Me vende, presidente. Me vende para o Grêmio ganhar dinheiro.
Vendeu. Tenho certeza que venceríamos o Boca em 2007 se nosso meio tivesse Anderson e Carlos Eduardo. O tempo passou e o moleque marrento ganhou títulos na Europa e, mais tarde, o futebol caiu.
Veio para o Inter no começo de 2015 - e, confesso, senti a porrada. Dizem que, tempos atrás, se ofereceu para voltar ao Grêmio, mas a diretoria não quis. Futebol, oras. Agora, na véspera de um Grenal, Anderson dá essa declaração - e boa parte da torcida tricolor fica indignada. Por que, hein?
Difícil, mesmo, é passar fome. Não é que Anderson tenha zero sentimento pelo Grêmio, mas ele sempre foi assim. Babaca ou não; cada um que ache o que quiser. Contudo, o sujeito só foi fiel com a personalidade que sempre teve. Ponto.
Achar que, de uma hora pra outra, Anderson é um imbecil que mudou ao vir para o rival... Não passa de desconhecimento e ignorância da história futebolística.
Fanatismo é um saco. Que preguiça.

