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| Era uma bela camiseta |
Corria o ano de 1995 e, ao contrário do que se passou depois, esse era um bom momento para ser uma criança gremista. Tu não escutavas gozação e, a qualquer dia da semana, estavas vibrando com alguma vitória tricolor. No colégio então, nas peladas do recreio, era uma barbadinha. Só colocar uma camiseta e pronto: tu viravas o Jardel, o Paulo Nunes ou, até mesmo, o Arílson (por que não?). Todos usavam suas belas camisetas tricolores; aquele azul claro bonito, o distintivo em relevo (tinha que estar em relevo, senão não era original). Menos eu. Eu usava uma camiseta reserva; branca, número 10. Ela era de 93, Dener era o 10.
Naquele ano, entrei na metade do semestre no colégio São Pedro. Isso é sempre horrível porque não conheces ninguém e, para uma criança tímida feito eu, fazer amizades não era a coisa mais fácil do mundo. Entretanto, o futebol sempre ajuda. Ironicamente, a primeira amizade que eu fiz foi com um colorado, o Thiagão. E um dia ele me deu a letra:
- Ô, meu. Amanhã a gente vai jogar bola. Vem com a camiseta do teu time. Tu é gremista ou colorado?
Respondi, ele riu e me falou pra eu colocar a camiseta e aparecer no colégio na parte da tarde. Maravilha. Naquela época, antes do cigarro entrar na minha vida, eu ainda jogava relativamente bem e acho que isso seria um bom momento para angariar algumas amizades. O problema todo seria a camiseta. Como eu ia aparecer com aquela camiseta de 1993? Certo que iam me perguntar onde estava o emblema em relevo. Eu precisava bolar uma boa história, caso me perguntassem alguma coisa. A alternativa foi dizer que aquela camiseta foi o último presente que o meu pai tinha dado antes de falir. Mas não deu tempo para essa bobagem.
Logo que cheguei ao colégio, começaram as piadas dando conta de que a minha camiseta era falsificada, que eu tinha achado jogada na Farrapos ou que eu roubei de um travesti lá na Voluntários. Eu era tímido, lembra? Então eu não respondi, apenas sorri e fui jogar bola. Mas eu já era da turma. A camiseta fez isso. Joguei bem, fiz três gols e, a partir daquele dia fiquei conhecido como o Zumbi camelô. Zumbi, por causa das minhas olheiras e camelô, por causa da camiseta. Esse apelido durou um bom tempo, até eu ganhar a camiseta oficial de 95. ganhei da minha vó e da minha tia. Elas já tinham dito que iam me dar e, um dia antes do meu aniversário, fui deitar pensando que tinha que ser a sete ou a 16. Ganhei a seis, do Roger. Sim, grande lateral, é verdade. Mas veja, eu queria fazer gols e, com a camiseta de lateral esquerdo, eu não ia fazer muitos gols. Continuei usando a “falsificada”. Usei aquela camiseta até o dia seguinte, após o Grêmio perder para o Ajax, quando berraram pra mim na rua:
- Além de perder, usa camiseta comprada no camelô?
Assim que cheguei em casa, ela foi aposentada. Passei a usar a do Roger e minha temporada de futebol no colégio foi um horror. Meu futebol só melhorou quando ganhei uma nova, mas essa, de centroavante. Do Clóvis. Aquele do golaço contra o Corinthians. Que alegria. Pensando bem, nem melhorou tanto assim.

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